3 de Junho de 2023
Sábado
Revendo minhas memórias mais antigas, desde que me lembro bem, algo que sempre gostei quando mais novo era do clima ensolarado, onde o céu limpo é preenchido de diferentes tons azuis, que vêm acompanhados de um leve frio capaz de acalmar a alma; algo não muito difícil de se ver no Outono. Antigamente, via isso como um bom sinal: em dias como esse eu me sentia mais vivo e capaz de fazer qualquer coisa. Ao contrário dos dias atuais, onde esse azul é capaz de me deixar sem ar, tirando qualquer tipo de expectativa ou animação de mim.
Vão fazer oito anos depois de amanhã, oito anos que minha mente começou a se perder em um loop do passado, até hoje. Ouvi alguém comentar que escrever algo que não se pode dizer ajuda a se livrar daquilo de alguma forma, então, vou tentar fazer isso na esperança de que consiga me livrar desses pensamentos que tomam minha mente; me curando ou ao menos melhorando de marcas do passado.
Era 4 de Junho, em uma manhã como essas que citei. Apesar de estar fora de época, meus pais resolveram alugar uma casa no litoral para passarmos o fim de semana comemorando o 10° aniversário meu e do meu irmão. Nós realmente estávamos muito animados - íamos finalmente ver o mar que conhecíamos apenas pelas histórias da mamãe -, lembro do Hander ter ficado pedindo para ela por uma semana, todos os dias, uma prancha de surf como presente desde que soube (aquele cara não tinha vergonha nenhuma…). Já eu, desde que fiquei sabendo, passei dia após dia perguntando para ela se ele viria passar a data conosco ou não; na primeira vez ela me disse que nosso pai adorava o mar e que certamente viria. Na última, antes de embarcar no carro, que ele nos amava e no próximo ano tentaria vir.
Já dentro do carro, enquanto nossa mãe colocava algumas coisas no porta malas (ela não parava até usar realmente cada mínimo espaço), o Hander que estava sentado no banco de trás ao meu lado, parou de ficar se mexendo (ele tinha o hábito de colocar fones e ficar dançando, apesar de só ele ouvir a música), colocou os fones no pescoço, me olhou, sorriu e… me deu um soco.
- Cara, voce é idiota?!
(Hander): Eu? Certeza?
- An?!
(Hander): Qualé mano, nós finalmente estamos indo para a praia! E você tá aí triste, para de ficar chorando e se mexe!
- Você sabe bem porque eu to assim…
(Hander): Ah fala sério mano! Lá vai ter o mar, um bocado de areia para a gente construir castelos e além do mais a mãe disse que nós vamos tomar sorvete em uma sorveteria! Nós realmente vamos numa sorveteria!
- E era para nosso pai ir também…
Ele parou, me olhou… e me deu mais um soco.
- Ai! Para de me dar soco!
(Hander): Se você continuar assim eu vou te dar bem mais, hehe… AI!
- Eu também sei dar socos babaca!
(Hander): Então cai dentro! - Disse ele enquanto tirava o cinto de segurança.
Mas após um chute dele na minha barriga e de um puxão meu no cabelo dele…
(Mãe): Vocês já estão brigando de novo meninos? - Nossa mãe apareceu na janela direita do carro, do meu lado (ela parecia ter um sexto sentido para saber quando estávamos brigando, era incrível).
(Hander): O Kili que começou mãe.
- EU O QUE?
(Hander): Tsc, ele estava triste por causa do papai e eu só tentei deixar ele feliz á força. - Ele falou isso enquanto cruzava os braços, dando aquele sorrisinho de sempre.
(Mãe): Está bem, está bem, chega de brigas meninos; Killian larga o cabelo do seu irmão, e Hander, não tem como deixar alguém feliz a força, ainda mais com um soco! Você vai acabar quebrando o óculos do seu irmão de novo!
(Hander): Não tem?
- Claro que não bobão!
(Mãe): Killian… - Ela me olhou nos olhos fixamente.
- Tá, tá, parei… Desculpa…
(Mãe): E Hander… - O olhar dela era mais perigoso ainda quando era pro Hander, às vezes me dava até medo.
(Hander): Desculpa mãe…
(Mãe): Não fica triste, tá bem Killian? Eu sei que é uma data muito importante e que acaba dando mais saudade ainda; ele ia vir, mas por conta de uns imprevistos do trabalho acabou não dando tempo. Mas hoje mais cedo ele me ligou e disse que é para vocês se divertirem por ele!
(Hander): É! Eu também não ganhei a prancha que queria, mas isso não vai atrapalhar os meus planos! - Fazendo um sinal positivo com a mão.
- An?! o que a prancha tem haver com isso?!... na moral… ahahah!
(Mãe): hu! hu!… Sinceramente, só você mesmo.
(Hander): Como assim? Não entendi a piada... ಠ ಠ
Nessas horas era impossível segurar o riso, o Hander era esse tipo de cara imprevisível. Muitas vezes nem nossa mãe aguentava segurar o riso.
(Mãe): Já pegaram tudo o que precisam para a viagem?
(Eu / Hander): Tudo!
(Hander): Mãe, posso ir sentado na frente?!
(Mãe): humm, esse lugar já está reservado.
(Hander): Reservado?....
(Mãe): Certo, vou só pegar mais uma coisinha ali na sala e já volto. Sem brigas, meninos! - E saiu da janela em direção a nossa casa para pegar o que faltava.
Nossa mãe realmente sabia como parar uma briga nossa, o que era uma grande habilidade dela, além das demais. Sério, era muito difícil ter ao menos um dia que eu e o Hander não brigasse: ele adorava arranjar encrenca comigo e eu também não era muito diferente; caso você tenha um irmão, deve entender bem o que quero dizer.
Mas, daquela vez, no fundo eu sabia que ele tinha razão, não ia mudar nada ficar triste pelos cantos; porém, com a minha idade, não conseguia me conformar com a realidade de ele não vir de novo; eu tentava lembrar ao menos de um aniversário com nosso pai presente, e era algo mais difícil do que deveria ser. Não entendia o que lhe ocupava tanto e às vezes genuinamente perguntava para a mamãe o que seria mais importante do que nós… do que estar com nós. Ela sempre nos falou que nosso pai era muito ocupado com o trabalho, e que este por sua vez, era muito importante para o governo e ajudava um monte de pessoas. Na época, era isso que sabíamos.
Logo nosso mae saiu de casa, e claramente dava para ver o que ela havia pegado: o violão dela. Ah eu não cheguei a comentar (Afinal ainda estamos no começo), mas nossa mãe era muito habilidosa com instrumentos, principalmente com o violão; ela amava tocar, e nós amávamos escutar e cantar (no caso do Hander, rimar); como um Hobby que nós fazíamos muitas vezes na semana.
Ela entrou no carro, colocando o violão no banco da frente.
(Hander): Agora eu entendi o “Reservado”....
(Mãe): Esse é um passageiro especial, e de qualquer forma, vocês ainda são muito novos para ir na frente. É perigoso em viagens longas.
(Hander): Ahhh, fala sério mã…
A fala do Hander foi interrompida por conta de vermos um carro preto com vidros fumês lentamente passando ao lado do nosso e parando então no mesmo nível, o vidro começou a descer. Normalmente isso seria algo assustador, se não fosse pelo fato de conhecermos aquele carro.
- Tio Aron!!
Era nosso Tio, que apesar de não ter conexão sanguínea conosco, nós o consideravamos as vezes muito mais do que um tio. Um homem de pele negra, alto e musculoso, com cabelo escuro e bem curto, acho que na época ele tinha por volta dos 30 anos. Estava sentado no banco do passageiro (nos outros assentos estavam uns homens que sempre o acompanhavam, usando ternos).
(Hander): Ah tio Iron! Quanto tempo! - O Hander sempre falava o nome do tio errado.
(Aron): Olá crianças! Sentiram saudades?! É claro que o seu tio de ferro iria vir para o aniversário de vocês, heh!
Nós gostávamos muito do Tio Aron, ele sempre fazia de tudo para nos deixar felizes, desde brincar conosco rolando no chão igual um cachorro ou até nos levar para passear de carro escondido da mamãe; já que sair de casa era algo bem raro para nós, ele nos levava sempre que dava, na surdina. Viajava bastante, mas ao menos 1 vez na semana sempre vinha lá em casa trazendo algum presente das viagens, às vezes até dormia no meu quarto ou no do Hander. Penso que muita gente gostaria de ter tido um tio como ele, um que estava presente em todos os aniversários.
(Hander): Hein, hein, você trouxe algum presente da viagem tio?!! - Sem um pingo de vergonha.
(Mãe): An?! Que modos são esses Hander?! - Minha mãe já passou algumas por causa dele…
(Hander): Heh, foi mal, foi mal….
(Aron): Ah deixa disso Sasha! - Ele então suspira - Desculpa Hander, mas dessa vez…
É uma pena que eu não tenha tirado uma foto da cara do Hander naquele momento para colocar aqui.
- Sério?! Você também vai ir tio?!
(Aron): E eu já deixei de ir? Pode apostar que sim!
Eu e o Hander se olhamos e quase pulamos de alegria, sem dúvidas esse era para ser o melhor de todos os nossos aniversários.
(Mãe): Ok meninos, coloquem os cintos, já estamos saindo. Aron, você vai nos acompanhar na frente, certo?
(Aron): Ah sim; falando nisso, tem mais um carro ali atrás que também está conosco, o Dion está nele.
Nesse momento, eu olhei pelo vidro traseiro e vi um carro como o do tio estacionado a alguns metros do nosso, nele também reconheci alguns homens, dentre eles, no volante, usando um óculos escuro estava esse homem que se chamava Dion, também conhecido como "Remendado" ou "Costurado" por mim e o Hander.
Demos esse apelido por conta dos diversos pontos de costura que se estendiam pelos seus braços e mãos, indo até o rosto dele; passando pela sua testa, olho direito (o qual eu e meu irmão nunca vimos aberto) e finalizando - se na bochecha. O Hander sempre ficava pedindo para ele como ele tinha ficado daquele jeito, mas ele sempre ignorava de uma forma fria.
Algumas vezes nossa mãe tinha que sair de casa para resolver algumas coisas, e nesses eventos sempre vinha alguém ficar conosco; em alguns casos era ele, infelizmente. Não podíamos fazer nada quando ele estava lá: nem andar demais, nem falar demais, até mesmo na hora de comer tínhamos que tomar cuidado; sentíamos como se fossemos animais em um zoológico (talvez com um pouco menos de liberdade). Nunca entendemos o porquê de ele agir assim, talvez aquele era o jeito dele, um jeito que eu já havia percebido que nossa mãe também não gostava.
(Aron): Convocaram ele para ir junto desta vez.
(Mãe): … - Ela parecia não ter gostado muito da ideia.
(Hander): O Sr. Chatão vai ir também?!
- Sério mesmo Tio? A mamãe também não gosta muito dele.
(Aron): Eu sei que vocês e a sua mãe não se dão bem muito bem ele meninos… Mas podem contar comigo! Seu tio aqui não vai deixar ele interferir em nada!
(Hander): Valeu Tio!
- Vai que ele fica mais animado na praia né! - Eu disse isso usando a melhor das esperanças.
(Mãe): (Suspira)… Certo, obrigado Aron. De qualquer forma, não podemos interferir nessa decisão… - Ela então colocou o cinto e nós fizemos o mesmo.
(Aron): Bem, então vamos lá! Podem ir nos acompanhando, e qualquer coisa, só usar o rádio para falar conosco Sasha.
Ele então pegou o rádio na mão.
(Aron) ~ rádio: E vocês também sargentos, em qualquer caso de urgência, nos contatem, câmbio!
(Hander): (pegando o rádio que ficava no meio dos assentos frontais) Fechado comandante!
- Câmbio! - Aproveitei para falar tambem.
Saímos de viagem por volta das 7:35 AM, e cercada por montanhas, nossa cidade ficava no litoral, porém iríamos passar nosso aniversário num local mais isolado que ficava a em média 2 horas de viagem; segundo a mãe, lá seria "menos barulhento, com pouco tráfego e mais natureza" oque nos deixaria com uma "melhor primeira experiência". Como eu já comentei, eu e o Hander nunca tínhamos ido na praia (mesmo que nossa cidade fosse litorânea), então de qualquer modo, estaríamos ganhando… e ganhamos.
Pode parecer algo bem "comum", mas eu não pensava que olhar pelo vidro do carro e ver toda aquela paisagem mudar fosse tão incrível, aqueles prédios escuros que eu não pensava que fossem tão grandes (nossa casa era numa zona mais afastada, então viamos os prédios apenas de bem longe) iam aos poucos dando espaço para o verde das árvores, que de alguma forma cobriam todas aquelas montanhas; uma delas, mais distante e bem mais alta que a maioria, possuia uma torre de comunicações em seu topo. E por algum motivo que não sei explicar, ver aquilo foi um tanto quanto eufórico.
Mas eu também não fui o único: o Hander passou a viagem inteira narrando via rádio para o tio tudo o que via, como se estivesse numa missão militar, e tio Aron não ficava para trás, respondendo como um comandante. Em determinado momento, logo após subirmos uma íngreme parte da rodovia:
(Aron) ~ rádio: Atenção sargentos!
Eu estendi a mão, pegando o rádio.
(Eu / Hander): Sim senhor!
(Aron) ~ rádio: Estamos passando por uma área de alto relevo. O acostamento está completamente coberto pela vegetação, o que dificulta a visão das laterais, mas peço para quê todos os integrantes do esquadrão por favor olhem para o lado direito….
Mesmo que sem entender nada, eu e meu irmão ficamos animados; ele tirou o cinto de segurança e quase subiu em cima de mim para ver também.
- Ei! Toma cuidado aí!
(Hander): Heh, foi mal aí cara!
(Aron) ~ rádio: Após este longo percurso, gostaria de lhes apresentar…
Logo, o mato que cobria nossa visão lateral se desfez numa clareira, e o que vimos? Bem, não preciso dizer que foi uma das coisas mais incríveis e lindas que já vi na minha vida.
(Aron) ~ rádio: … O MAR!
Lá estava ele, o local onde o céu e a terra se encontram em um só azul, levemente se balançando em meio às ondas que então se quebravam no branco da areia. Era impossível piscar.
- Isso é…
(Hander): … Lindo!
- É igualzinho como a mamãe nos contava!!
(Hander): Sim!! Mãe, mãe, mãe, vamos la tomar banho?! Vamos?!
(Mãe): Se acalmem crianças, logo logo a gente chega na casa, e ele fica bem encostadinha na praia… - Nesse momento, nós vimos de relance uma lágrima escorrer do olho dela.
(Hander): Você está chorando mãe?
- Aconteceu alguma coisa?
Ela se virou para nós, sorrindo.
(Mãe): Ah não foi nada meninos, eu apenas fiquei feliz por vocês estarem aqui… Mas já passou…
(Aron) ~ rádio: Então nem você é de ferro hein! Ah! Ah! Ah!
(Mãe): Vocês poderiam me fazer o favor de desligar esse rádio…!!
(Hander): hehehe! Você ficou desprevenida mãe!
- Pois é! eh eh!
O tio era o único que conseguia tirar nossa mãe do sério; e era muito engraçado quando isso acontecia.
A rodovia passava na borda de um penhasco e, da mesma forma que era possível ver o mar, era possível ver mais a frente os morros e até onde a costa litorânea se estendia, a qual formava dois semicírculos perante a água do mar, um mais acima do outro, sendo que na ponta do mais de cima havia algo como pier, que mesmo daquela distancia, parecia ser bem comprido; vendo aquilo, notei que a junção dos semicírculos lembrava bastante a forma de um…
- Coração!
(Hander): An?! Eu não sou seu namorado não! hum, eu hein.
- É o que?! Não seu babaca! Eu tô falando do formato da praia, olha ali!
(Hander): hummm...
- Se você juntar aquela parte com essa, fica parecendo um coração!
(Hander): Ohhhh, verdade mano!
(Aron) ~ rádio: Olha só, você acertou em cheio Killian! O nome daqui é "Praia do Coração", e é bem fácil saber o porquê!
- "Praia do Coração"… legal…
(Hander): Tio Iron, Tio Iron! Falta muito para chegarmos na casa ainda?!
(Aron) ~ rádio: Já estamos bem perto rapazes, a casa fica bem ali na praia. Mas o que acham de dar uma paradinha no próximo posto para abastecer? Meu motorista aqui acabou esquecendo de abastecer hehe.
(??) ~ rádio: Me desculpa chefe! Eu devia ter cuidado o combustível com mais atencão...
(Aron) ~ rádio: Ah, Relaxa! Você ainda é novo nisso, sei bem como é!
(Dion) ~ rádio: Nos foi mencionado que devíamos seguir nosso trajeto sem demais paradas, Aron. Devíamos fazer o que disseram.
(Aron) ~ rádio: Hummm, você tem razão… mas olhando por outro lado, sem combustível é mais fácil de acontecer uma "parada".
(Hander): Boa tio! - Era bem dificil ele pensar antes de falar ou dizer algo.
- (Sussurrando) Fala mais baixo cara, desse jeito ele vai te ouvir e vai sobrar para nós!
(Hander) Oh, verdade! É melhor eu falar mais baixo! - Ele disse isso sem nem ao menos diminuir a voz.
(Dion) ~ rádio: Acho que você deveria ter mais responsabilidade com sua equipe, principalmente com novatos.
(Aron) ~ rádio: Então fechado, eu assumo a responsabilidade de irmos lá.
(Mãe): Eu também preciso abastecer. O novato não foi o único que não encheu o tanque antes de sair. - Ela disse isso, mas conseguíamos ver no painel do carro que ainda estava na metade do tanque.
(Aron) ~ rádio: E então Dion, o que me diz?
(Dion) ~ rádio: …
(Hander): (Sussurrando) Ele ficou sem saída eh! eh!
- (Surrando) Pois é hi! hi! hi!
(Aron) ~ rádio: Pois bem, acredito que isso foi um sim.
(Aron) ~ rádio: Sargentos!!
(Eu / Hander): SIM COMANDANTE!!
(Aron) ~ rádio: Nos aproximamos da nossa primeira parada: A "Central de Abastecimento do Velho Greg"!
- ENTENDIDO!! CENTRAL DE ABASTECIMENTO!! - Por algum motivo, eu fiz posição de sentido.
(Hander) ~ rádio: DO VELHO GREG!! - Por algum motivo, o Hander também fez.
(Mãe): Central de Abastecimento, hein…
(Aron) ~ rádio: Sério, eu amo aquele velhote.
(Dion) ~ rádio: Agora eu entendi o porquê de querer parar lá.
E então seguimos nosso percurso por mais alguns quilômetros (acho que 4 ou 5), cortando a floresta através da via que seguíamos e ficando cada vez mais próximos da água do mar. E finalmente, após algumas subidas e descidas, avistamos a "Central de Abastecimento", que na verdade se chamava "Gregory's Auto - Posto" e não era lá tudo aquilo; digo, se aquele fosse o tamanho de uma central, eu não queria imaginar o tamanho do que não fosse… mas apesar disso, o lugar era de uma simplicidade aconchegante.
Possuía duas bombas de combustíveis, uma loja de conveniências e algumas mesas externas localizadas sob a sombra de longos coqueiros, os quais possuíam fios em seus troncos que se ligavam a uma rede de lâmpadas (apagadas, já que era de manhã) que deviam iluminar o lugar durante a noite.
O mar ficava por volta 55 metros de distância, o que fazia duas certas crianças ficarem mais enérgicas do que nunca.
(Hander): Ahhhhh! Por favor, por favor mãeeee! Deixa eu testar minha prancha?! Por favor vaiii, é ali do lado!! - O hander estava fazendo de tudo para que a mãe desamarrasse a prancha de cima do carro.
- É mãe, deixa a gente dar só uma mergulhadinha!
(Mãe): E vocês ao menos sabem nadar?
- Esses dias atrás eu e o Hander vimos um documentário sobre tubarões! A gente só precisa fazer igual eles!
(Mãe): Ah sim; mas eu acho que vocês dois nao são tubarões.
(Hander): Puff... a gente tem mais haver com macacos do que tubarões mano.
- Você tá do lado de quem idiota?!
(Mãe): Eu vou falar um pouco com o tio de vocês, aguardem aqui dentro até que eu volte. Entendido, Killian e Hander?!
- Sim… - Olhei para a janela triste como um macaco numa jaula.
(Hander): Tsc, entendido… - Cruzando os braços.
E então ela saiu do carro. Tudo ficou quieto por alguns instantes, até que olhamos um para o outro.
- E aí, lembrou?
(Hander): Heh, eu já fiz desde que chegamos! - Ele levantou a mão com os dedos cruzados, e eu fiz a mesma coisa.
- Boa, então agora é hora de agir recruta! - Falei isso ja soltando o cinto de segurança.
(Hander): Ãnnnn? Porque eu sou o recruta?!
Destravamos a porta e lentamente saímos, olhando cuidadosamente para todos os lados. Nosso carro estava parado sob a cobertura do posto, a mãe estava se dirigindo para a bomba de combustível onde o frentista (que era um senhor baixo, careca e com idade avançada o suficiente para trabalhar num posto) estava abastecendo o carro do Tio Aron enquanto conversava com ele (mais conversando do que realmente abastecendo pelo que me lembro).
Minha mãe era bem atenta a tudo que nós fazíamos, então tínhamos que tomar o máximo de cuidado possível para ela não nos ver, o que era uma missão e tanto.
- Você tá pronto?!
(Hander): No seu sinal.
- Preparar…
(Hander): Um…!
- Dois…!
(Hander): Três…!
(Eu / Hander): E JÁ!!
Saímos correndo rapidamente em direção a uns arbustos distantes que ficavam retilíneos a traseira do nosso carro, e realmente, acredito que o destino estava do nosso lado: Num último segundo, faltando pouco mais de um passo para chegarmos ao nosso destino, eu olhei para trás e vi que nossa mãe tinha parado e estava virando para trás (provavelmente o sexto sentido dela entrando em ação), então só me joguei com tudo em cima do Hander para que caíssemos no arbusto, o que de fato aconteceu, e ficamos no meio da flojagem. Inesperadamente, após isso, o Hander ficou de pé.
(Hander): Ah, bem, pelo menos tentamos né cara…
- Tá fazendo o que?! Se abaixa! - Eu agarrei a camisa dele e puxei ele de volta para o meio das folhas.
(Hander): A mamãe sempre da menos bronca quando a gente se entrega cara!
- Olha lá! É o cara que estava dirigindo pro tio Aron!
Nossa mãe havia parado de se virar para trás e estava falando com o homem que estava dirigindo para o tio; ele estava se curvando e parecia estar agradecendo (provavelmente pelo fato dela ter influenciado na decisão de abastecer os carros mais cedo). Se não fosse por ele teríamos sido pegos naquele exato momento, por isso acreditei fortemente que o destino estava do nosso lado, pelo menos, até aquele momento.
Enquanto contemplava essa ideia por alguns segundos, não fui interrompido nenhum momento, com tudo estando bem quieto e tranquilo, bem quieto e tranquilo, tranquilo até demais... o que era um… PROBLEMA! Meu irmão havia sumido do nada!
Ao meu redor havia apenas árvores e vegetação, porém, do meu lado direito notei que havia uma trilha entre meio a mata fechada que seguia em direção ao litoral.. Era ali, tinha que ser por ali que ele tinha passado, e do jeito que eu conhecia ele, era de se esperar que já estava indo dar uns mergulhos.
- Fala sério, esse cara… Nem ao menos me espera!
Levantei e saí correndo na mesma direção da trilha.
Seguindo rapidamente, curva após curva, parei subitamente quando vi entre meio às folhas secas e a terra úmida da mata os fones que o Hander usava. Parei e congelei. Aquilo não era normal, definitivamente não era; mesmo o Hander sendo desleixado com as coisas dele, ele jamais deixaria o fone que ganhou do nosso pai largado assim por aí, no meio da floresta.
E assim, a alegria e energia que tomavam conta do meu corpo foram embora, deixando para trás um fantasma de ansiedade e medo no lugar. Ouvia barulhos ao meu redor entre meio a penumbra das árvores e não sabia se era somente o vento, ou se de fato, havia algo ali.
Mas… levando em consideração o que eu havia encontrado, juntamente com algumas lembranças do passado, presumi o mais óbvio.
- Certo, está bem! Você ganhou essa, eu fiquei com medo mesmo dessa vez. Mas agora pode parar de se esconder, Hander!
Ouvi barulhos vindos da direita, atrás de mim.
- Sério, só você mesmo. Eu estava pra sair correndo de volta para a mamãe! - Me virando para a direção do barulho.
O que vi? Sendo sincero, ainda tenho poucas lembranças desse momento até hoje.
De trás de uma das árvores, em um espaço coberto pela penumbra das folhas, lentamente olhos completamente vermelhos começavam a surgir de trás do tronco voltados para minha direção, juntamente com uma grande mão escura de dedos finos e garras afiadas que se cravaram na lateral esverdeada do tronco.
Seria necessário muito menos que isso para assustar uma criança que recém completara 10 anos. Todos os meus músculos pareciam estar cobertos por concreto e minhas pernas não queriam me obedecer; e foi diante desse meu desespero que a criatura começou a sorrir.
"Se mova!", "Killian, por favor, se mova!", "Se mova ou você vai morrer!" - minha mente estava uma bagunça e essa bagunça juntamente com o medo não me deixava decidir o que fazer. Num momento em que sentia cada batida do meu coração, lembrei do que meu irmão tinha me dito.
(Hander) ~ Flashback: Qualé mano, nós finalmente estamos indo para a praia! E você tá aí triste, para de ficar chorando e se mexe!
(Hander) ~ Flashback: [...] Para de ficar chorando e se mexe!
(Hander) ~ Flashback: […] e... se… MEXE!
E assim, lancei o fone do hander em direção àquilo, e saí correndo, correndo com todas as forças, correndo pelo minha vida. Então, em meio a esse caos que parecia não ter fim, avistei o fim da trilha, já dando para ver o litoral a minha frente, quando, após fazer a última curva em passos de esperança, dou de frente com uma cena que me fez se arrepender de cada passo, tornando o pior dos pesadelos em algo real: estirado sobre a fina areia, sob a sombra de um grande coqueiro, estava o corpo do Hander.
Diversas marcas avermelhadas cobriam sua pele, marcas as quais eram o menor dos problemas, pois o branco da areia ao seu redor estava manchado, manchado com o vermelho vivo do sangue que saia do pescoço dele.
Em meio a um tsunami de pensamentos e emoções, não prestei atenção no vulto que estava agachado ao lado dele, que então ficou de pé e se aproximou, parando do meu lado. Com o barulho de uma lâmina se fechando, por alguns segundos recobrei meus sentidos e, lentamente virando minha cabeça na direção do vulto, senti sua mão no meu ombro…
(Dion): Sabe, nem tudo é como queremos.
Não sei dizer o que senti, pois ao mesmo tempo que senti alívio ao reconhecer quem era, senti um medo absoluto ao ver aquele olho que sempre esteve fechado, dessa vez, aberto. Era completamente negro, com uma íris púrpura vibrante que parecia olhar no fundo da minha alma
Antes que eu pudesse refletir ou falar alguma coisa, aos poucos minha visão foi ficando turva e meu corpo mais pesado, fazendo com que minhas pernas perdessem totalmente as forças que restaram. Juntamente de mim, tudo ao meu redor foi lentamente desabando, numa monocromia de sentimentos.
Esta foi a primeira vez que me afundei no Escuro.
Continua...